O Crossover entre O Conto da Aia e Oryx e Crake

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Tanto Oryx e Crake (2003) quanto O conto da Aia (1985) são distopias escritas por Margaret Atwood. Apesar de na temática maior serem diferentes, as narrativas tem alguns subtemas em comum. Além disso, ambas mostram realidades que parecem estar distantes, mas que, ao mesmo tempo, parecem possível de acontecer em um futuro próximo.

Em O Conto da Aia, a autora conta a história de Offred, a Aia do comandante Fred da República de Gileade (antigo Estados Unidos da América). No começo do livro a narrativa parece confusa, não é explicado qual o papel de uma Aia, o motivo pelo qual ela mora na casa do comandante nem como a política segregacionista entrou em prática. Mas, através dos flashbacks de Offred descobrimos o que levou a tal resultado.

Em algum momento no passado acontece um ataque terrorista que mata o presidente e a maioria dos membros do congresso, e, com o pretexto de restaurar a ordem, um grupo fundamentalista cristão realiza um golpe de estado. Eles logo retiram os direitos de independência financeira das mulheres, fazendo com que elas fossem dependentes de seus parceiros, amigos ou pais. Não muito tempo depois elas perdem todos os seus direitos, inclusive o de ler.

Esse grupo fundamentalista então instala um regime totalitária, militarizado e movido majoritariamente pelo fanatismo religioso, além de instalar um sistema de castas. Nesse sistema os comandantes estão no topo, seguidos dos homens da “plebe”, esposas dos comandantes e das Aias. Apesar de serem consideradas servas e terem suas identidades apagadas, coloco as Aias como um grupo importante no sistema de castas porque, diferente das outras mulheres, elas têm um papel na sociedade. Elas não são consideradas como um objeto decorativo como as esposas dos comandantes. Também não são completamente marginalizadas quanto os empregados e as mulheres da plebe, pelo menos quando estão em idade reprodutiva.

Além do machismo, totalitarismo e fundamentalismo religioso, O Conto da Aia também aborda questões como saúde e poluição. O motivo pelo qual as Aias são “necessárias” nessa sociedade é que, por causa da poluição e do alto nível de doenças sexualmente transmissíveis, muitas pessoas estavam se tornando estéreis. Para resolver esse problema, o governo começou a pegar mulheres férteis em idade reprodutiva, doutrina-las e então enviar para um comandante cuja esposa não conseguia engravidar. As Aias então são obrigadas a passar por uma série de estupros ritualizados e consultas médicas até que ela fique grávida. Após o nascimento do bebê, elas são designadas para outra família.

Já em Oryx e Crake, a situação é diferente, principalmente para as mulheres. Em algum momento no futuro, a maioria dos humanos morrem por causa de uma doença criada e disseminada por ação humana. Jimmy (que agora se chama Homem das Neves), acredita que é o último ser humano ainda vivo, e, a pedido de Crake, seu amigo de infância, é responsável por cuidar dos Crakers.

Na sociedade onde Jimmy nasceu, existiam dois grupos: aqueles que moravam nos complexos das grandes empresas, e aqueles que moravam na plebelândia. Por causa do alto nível de poluição e violência, as cidades começaram a se tornar espaços perigosos para a elite morar. A grande indústria então começou a construir complexos onde os seus empregados pudessem morar. Graças as tecnologias desenvolvidas por esses grupos, a poluição era isolada na plebelândia. Além disso, os moradores dos complexos eram vigiados, sob o pretexto da manter a segurança, pela CorpSeCorps, uma empresa que agia como se fosse o governo.

  • O Poder Falho do Fundamentalismo Religioso

Um dos pontos em comum entre ambas narrativas é o poder falho de uma sociedade que prega o fundamentalismo religioso. Em O Conto da Aia, a sociedade segue uma religião cristã que acredita na superioridade masculina e no sistema de castas. Mas, ao longo da narrativa, o comandante de Offred mostra o quão falho pode ser esse sistema.

Certa noite Fred chama a sua Aia para uma conversa em seu escritório. Com o tempo esse pedido se torna um hábito, e ele se torna confortável para revelar as suas intenções. Na maioria das noites ele pede para que ela leia revistas antigas, e partisse de jogos de palavras com ele. Uma noite ele pega um casaco de sua esposa, e, com a ajuda de seu motorista, a leva para um estabelecimento em uma região onde apenas comandante podem frequentar. Existem várias interpretações para esse episódio e as intenções de Fred. Acredito que, acima de tudo, ele sinalize um fetiche de algumas pessoas no poder pela vida do passado.

Já em Oryx e Crake, a religião principal é a ciência e a tecnologia. Grande parte dos personagens acreditam cegamente nos produtos vendidos pelas grandes empresas, apesar de muitos causarem doenças ou efeitos colaterais que obriguem o seu uso contínuo. Também são considerados como pessoas superiores aqueles que dominam a área de exatas e biológica, assim conseguindo criar novos produtos e animais facilmente. Quando algum funcionário decide fugir dos complexos por não aceitar o que está sendo criados, eles têm que desaparecer senão são condenados à morte.

Mas essas pessoas não são as únicas “falhas no sistema” dessa religião. Jimmy relata que vários moradores dos complexos não se sentiam confortáveis em comer carne de porcão por acharem a composição genética muito parecida com a do humano. Quando vai pra faculdade, ele também conhece uma colega que é parte de um culto contra o uso ou consumo de animais. Em O Ano do Dilúvio, segundo livro da trilogia, a autora explica mais sobre as crenças dos Jardineiros de Deus.

  • A Poluição

Outro fator em comum entre os dois livros é que os personagens são obrigados a ceder ao sistema para poder morar em um local onde a poluição não seja letal. Logo no começo de Oryx e Crake, Jimmy descreve o ambiente como um lugar sujo, onde é possível encontrar resquícios da história da humanidade através dos objetos que ficaram espalhados e os destroços na lagoa. Em determinado momento ele também fala “Elas (Crakers crianças) deviam ter mais cuidado: quem sabe o que pode estar infestando a lagoa?”

Já em O Conto da Aia, a poluição é mais subjetiva. Offred não tem nenhuma comprovação de que os locais fora da Republica de Gileade oferecem riscos à sua vida. Ela só sabe o que o governo fala, de que os locais fora do controle gileadeano foram tomados por uma radiação que mata lentamente e dolorosamente.

  • Elitismo

A sociedade gileadeana, assim como a de Oryx e Crake, são extremamente elitistas, mas de maneiras diferentes. Na primeira existe o sistema de castas, na qual os comandantes tem mais direitos que as outras pessoas, além de poderem frequentar em locais proibidos. Já na segunda, o elitismo não é apenas financeiro, mas também intelectual.

Jimmy e Crake são um ótimo exemplo de como a aptidão acadêmica é importante na sociedade em que vivem. Ambos personagens são filhos de figuras importantes nas corporações, mas Jimmy é péssimo em exatas enquanto Crake é um gênio. Assim, Crake consegue ir estudar na melhor faculdade e se torna a pessoa mais influente na HelthWyzer, maior e mais importante complexo. Enquanto isso Jimmy acaba indo pra pior faculdade, e acaba conseguindo um emprego importante por causa da influência de seu amigo.

  • Como essas narrativas refletem a realidade atual

Conforme foi mencionado anteriormente, ambas narrativas apresentam realidades distantes, mas ao mesmo tempo possíveis. Em O Conto da Aia, os temas mais relevantes atualmente é o totalitarismo e os direitos das mulheres, enquanto em Oryx e Crake é a questão ambiental.

  • Totalitarismo e Direitos das Mulheres

Esse ano vários estados norte-americanos passaram leis contra o aborto. Além disso, mulheres ocupam menos cargos de poder e são mais criticadas quando ocupam cargos na política. Segundo um artigo da revista Time, as candidatas à presidência americana sofrem muito mais ataques de trolls e fake news que os homens.

Regimes totalitários são outro ponto relevante na sociedade atual pois políticos estão se sentindo cada vez mais confortáveis em aludir a golpes de estado. Seus seguidores também se sentem mais confortáveis em expressar a vontade do Estado adotar um regime totalitarista. Também tem ocorrido um aumento em posições políticas extremas e que discriminam alguns grupos. Na França o antissemitismo cresceu 75% em um ano.

  • Questão Ambiental

Um dos assuntos mais comentados em 2019 foi o aquecimento global. Isso aconteceu parcialmente por causa da ativista sueca Greta Thunberg. Além disso, os EUA decidiram sair do acordo de Paris, que visa a diminuição na emissão de gases estufa a partir em 2020. Já no Brasil, o governo liberou o uso de mais de 380 agrotóxicos.

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